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Sublocação não autorizada: o risco que a imobiliária assume sem perceber

  • Dra. Drielle Oliveira
  • 21 de mai.
  • 5 min de leitura

O locatário saiu para uma viagem longa. Sublocou o imóvel para um amigo pelo WhatsApp. O proprietário descobriu por acaso - um vizinho ligou reclamando de barulho. E a imobiliária, que administrava o contrato, ficou no meio do problema sem ter sido avisada de nada.


Parece exceção. Não é. Sublocação não autorizada é mais comum do que os gestores de imobiliária imaginam - e o risco jurídico para a administradora é real, ainda que a maioria não saiba exatamente onde ele começa.


O que é sublocação e o que a lei diz

Sublocação é quando o locatário transfere o uso do imóvel - total ou parcialmente - a um terceiro, que passa a pagar aluguel ao próprio locatário. O contrato original continua vigente entre locador e locatário. O sublocatário fica numa posição jurídica intermediária.


No contexto da locação imobiliária gerida por administradoras, isso significa que um terceiro passa a ocupar o imóvel sem que o locador - e muitas vezes a própria imobiliária - tenha qualquer conhecimento ou controle sobre quem é essa pessoa, quais são suas intenções com o imóvel, ou se há garantias cobrindo a nova situação.


O artigo 13 da Lei nº 8.245/1991 é claro: a sublocação depende de consentimento prévio e escrito do locador. Sem isso, a operação é ilegal. O locatário que subloca sem autorização pratica infração contratual grave - o que autoriza o locador a pedir o despejo com base no art. 9º, II da mesma lei.


Mas aqui está o detalhe que a imobiliária precisa entender: a infração é do locatário. A exposição, porém, pode alcançar a administradora.


Onde a imobiliária entra na conta

A imobiliária que administra um contrato de locação atua como mandatária do locador. É o que configura, na prática, a relação jurídica: o proprietário outorgou poderes à administradora para gerir o imóvel em seu nome.


O mandatário - nesse caso, a imobiliária - tem obrigação de agir com diligência, como se estivesse gerindo seus próprios interesses. É o que prevê o art. 667 do Código Civil. Se a imobiliária descumpre essa diligência, pode responder por culpa ao locador.


Na prática, isso significa o seguinte: se a sublocação não autorizada ocorre enquanto a imobiliária administrava o contrato e realizava visitas periódicas ao imóvel - ou deveria estar realizando -, a pergunta que o locador vai fazer é simples: "A imobiliária sabia ou deveria ter sabido que havia outra pessoa morando lá?"


Se a resposta for sim - ou se a falha de diligência for demonstrável -, a administradora pode ser responsabilizada pelos danos causados ao proprietário durante o período de ocupação irregular.


Resultado: a imobiliária responde pelo prejuízo que não causou, mas que poderia ter evitado.


O fenômeno Airbnb e as plataformas de curta temporada

A situação se agravou nos últimos anos com o crescimento das plataformas digitais de hospedagem. O locatário que subloca um quarto no Airbnb ou disponibiliza o imóvel inteiro no Booking enquanto viaja pode estar, tecnicamente, praticando sublocação não autorizada - e a imobiliária administradora pode não ter percebido nada.


Em 2026, a Segunda Seção do STJ firmou entendimento de que o uso de imóvel residencial para estadia de curta duração via plataformas digitais exige aprovação do condomínio. O TJSP, em acórdão, já havia reconhecido que a sublocação via plataformas eletrônicas configura infração contratual que justifica despejo.


E aí a imobiliária precisa se perguntar: quando o locatário está usando o imóvel que eu administro para operação comercial de hospedagem sem autorização, onde estou eu nessa cadeia de responsabilidade?

"Na prática da assessoria preventiva, o que eu vejo com frequência em imobiliárias é que o contrato veda a sublocação - essa cláusula sempre está lá. Mas não existe nenhum processo de verificação periódica que permita identificar quando isso está acontecendo. Trabalhei em imobiliária antes de advogar, e sei como funciona o dia a dia: o contrato é assinado, o imóvel é entregue, e a relação passa a ser gerida principalmente pela cobrança do aluguel. A vistoria periódica fica em segundo plano. É exatamente aí que o risco se instala." - Dra. Drielle Pereira, advogada especialista em Direito Imobiliário em Curitiba

O que a imobiliária pode e não pode fazer quando descobre

Descoberta a sublocação não autorizada, a imobiliária administradora tem obrigações imediatas perante o locador.


Primeiro: comunicar o proprietário. A omissão da imobiliária nesse momento - seja por desconhecimento que deveria ter sido evitado, seja por opção de não informar - agrava a sua posição.


Segundo: não regularizar a situação por conta própria sem autorização expressa do locador. A decisão de aceitar o sublocatário, formalizar ou não a sublocação, ou iniciar o despejo é do proprietário - não da administradora. Agir sem mandato específico para isso expõe a imobiliária a uma responsabilidade adicional.


Terceiro: verificar as garantias locatícias. O seguro-fiança, a fiança ou o título de capitalização normalmente cobrem o locatário original. A presença de um sublocatário pode afetar a validade da garantia ou a cobertura do seguro - dependendo das condições contratadas. Isso precisa ser checado antes de qualquer decisão.


Parece simples. Não é. Cada passo errado aqui pode se tornar fundamento de uma ação do locador contra a administradora.

Sublocação de imóveis

Perguntas frequentes sobre sublocação não autorizada para imobiliárias


A imobiliária pode ser processada por sublocação não autorizada feita pelo locatário?

Pode, especialmente se ficar demonstrado que a administradora tinha obrigação contratual de realizar vistorias periódicas e não as realizou, ou que tinha conhecimento da situação e não comunicou o proprietário. A responsabilidade civil da imobiliária, nesse caso, decorre da falha no dever de diligência como mandatária do locador.


O contrato de locação proibir a sublocação é suficiente para proteger a imobiliária?

Não é suficiente por si só. A cláusula proibitiva é necessária, mas a proteção real da imobiliária vem da comprovação de que ela exerceu seu papel de administradora com diligência - vistorias documentadas, comunicação ao locador e procedimentos claros para quando a infração é descoberta.


O locador pode exigir o despejo imediato quando descobre a sublocação?

Sim. A sublocação sem autorização é causa de despejo com base no art. 9º, II da Lei nº 8.245/1991. O locador não precisa esperar o vencimento do contrato - pode ingressar com ação de despejo por infração legal ou contratual.


Se o sublocatário causar danos ao imóvel, quem responde?

O locatário original mantém responsabilidade integral pelo estado do imóvel perante o locador. O sublocatário responde perante o locatário. Mas na prática, se o locatário não tiver condições de pagar, o locador vai buscar as garantias - e o debate sobre a atuação da imobiliária administradora pode emergir dependendo das circunstâncias.


A imobiliária precisa realizar vistorias periódicas mesmo durante contratos de longa duração?

Depende do que está previsto no contrato de administração. Se há previsão de vistorias e elas não foram realizadas, a imobiliária tem exposição. Se não há previsão expressa, o dever de diligência como mandatária ainda pode ser invocado - especialmente se houver sinais de irregularidade que a administradora deveria ter percebido.


Conclusão

A sublocação não autorizada raramente aparece como pauta nas reuniões de imobiliária. Ela emerge quando o dano já ocorreu - o imóvel foi entregue em estado deplorável, o sublocatário sumiu, o locatário está insolvente, e o proprietário quer respostas.


Nesse momento, a imobiliária que não tem documentação de vistorias, não tem protocolo de comunicação e não tem clareza sobre seus limites de atuação fica vulnerável. E o prazo para agir - seja na rescisão do contrato, no despejo, ou na cobrança de garantias - começa a correr imediatamente após a infração ser descoberta.


Cada contrato de locação gerido sem respaldo jurídico é uma exposição que a imobiliária assume sem precisar. Uma análise especializada identifica essas vulnerabilidades antes que se tornem processos.


Se você tem corretores ou gestores que lidam com esse tipo de situação no dia a dia, vale compartilhar.


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